Caricatura Traçada com Sangue

Meu prefácio para o livro Hitler – Retrato de uma tirania, de Fernando Jorge.

Em 1963, na rua São Bento, em São Paulo, o então jovem escritor Fernando Jorge encontrou um amigo, o também escritor e político Israel Dias Novaes, diretor do Banespa e do jornalCorreio Paulistano.

Os dois foram juntos a um café de esquina, onde Israel, conhecedor da predileção de Fernando por História, recomendou-lhe certo livro que lera recentemente. Tratava-se de uma biografia de Adolf Hitler, recém-publicada no Brasil, escrita por um autor alemão chamado Herman Zumerman (não Hermann Zummerman, na grafia alemã correta). O título dessa obra era Hitler – Anatomia de uma tirania, e na nota do editor dizia o seguinte:

O crítico Alfred Belsen escreveu, a propósito deste livro: “Zumerman é, indiscutivelmente, um grande escritor. Seu estilo é excelente, muito agradável, saboroso. Consegue prender a atenção do leitor do começo ao fim. Hitler – Anatomia de uma tirania pode ser considerado, com justiça, o maior livro que apareceu, nestes últimos tempos, sobre o homem monstruoso que desencadeou, no mundo, a Segunda Grande Guerra”.

Animado, Novaes elogiou o livro, por sua clareza de estilo e abrangência da pesquisa realizada, mas sobretudo pela tradução ímpar, creditada a um certo Raul Rodrigues.

Ao ouvir isso, Fernando Jorge caiu na gargalhada, e, diante da perplexidade do amigo, soltou esta bomba:

— Herman Zumerman sou eu!

O livro, na verdade, fora escrito em português pelo próprio Fernando, e publicado sob pseudônimo, por imposição de seu editor, o judeu búlgaro Eli Behar. Na realidade editorial brasileira de então, autores estrangeiros vendiam mais que os nacionais, de modo que Herman Zumerman, o crítico Alfred Belsen e o tradutor Raul Rodrigues haviam sido todos inventados por Behar, numa época sem internet, em que tais imposturas passavam facilmente por verdades.

O próprio Fernando Jorge conta, a respeito disso:

“Eu não queria de modo algum publicar o livro com outro nome que não o meu, mas o editor me fez uma proposta boa demais, e como eu ganhava muito pouco na Assembleia, havia acabado de me casar e precisava desesperadamente do dinheiro, acabei aceitando.”

Esta é a nova edição corrigida e atualizada — inclusive no subtítulo — de uma das primeiras biografias de Hitler escritas por brasileiro. A raridade dela é ainda maior pelo fato de que escrever sobre a vida de alguém, falar dos seus pais, sua infância e vicissitudes, é humanizar esse alguém, e na década de 60 o Führer não era considerado um homem, e sim a encarnação do mal.

A distância do pós-guerra, bem como novos estudos históricos conduzidos com mais critério que emoção, têm possibilitado uma compreensão melhor da pessoa do líder austríaco, despojando-o do elemento sobrenatural e julgando-o no contexto de seu próprio tempo. O que em nada altera o fato de ele ter sido um monstro. Não o diabo, apenas um homem, sim, embora o pior de todos que já comandaram uma superpotência.

Poucos personagens históricos são tão indefensáveis quanto o Führer do Terceiro Reich. Com uma mistura de maquiavelismo político, monomania e falta de escrúpulos, ele seduziu uma nação, apelando aos seus instintos mais primitivos e mesquinhos, precipitou o maior conflito armado de todos os tempos e causou milhões e milhões de mortes. Nenhum outro indivíduo foi diretamente responsável por tanta destruição, a tal ponto que, para chamar um personagem público de ogro autoritário e/ou criminoso, basta pintar-lhe um bigodinho de Hitler numa foto. Nenhum outro ditador se enquadra tão bem nas características principais do psicopata, segundo o Ato de Saúde Mental do Reino Unido de 1983:

A) Incapacidade de estabelecer relacionamentos afetivos (Hitler amou somente a sua mãe e a sua cadela, à qual fez a suprema caridade de envenenar quando se suicidou).

B) Propensão a ações altamente impulsivas e irracionais (a marca registrada da trajetória política dele, cujo sucesso inicial se deveu a uma capacidade suprema de manipulação mesclada a uma ideologia antissemita sem qualquer base factual).

C) Falta de sentimento de culpa ou de responsabilidade pelas próprias ações.

D) Incapacidade de aprender de experiências adversas.

Entretanto, para quem ignora quem ele foi e todo o mal que causou, Hitler parece apenas ridículo, com seu bigode quadrado, topete pré-emo e gestual furibundo. Seus contemporâneos, antes que ele chegasse ao poder, achavam-no esquisito e algo excêntrico, mas inofensivo. O genial Charlie Chaplin foi um dos primeiros a explorar a qualidade truanesca da pessoa do Führer, ao retratá-lo na melhor sátira política da história do cinema, O grande ditador, de 1940.

De fato, quase todos os ditadores são caricaturas vivas. Não só Hitler parecia um Carlitos mal-humorado, como seus amigos Stalin, Mussolini e Franco eram nanicos; o Duce, em particular, não passava de um tampinha cabeçudo, de uniforme extravagante e metido a machão. A verdade é que, precisamente por serem caricatos e caricaturáveis, esses homens perseguiram tão avidamente o poder, como forma de superar seus monumentais complexos de inferioridade. Porque maçantes, não foram considerados perigosos, e isso possibilitou que se tornassem caricaturas desenhadas com sangue, em virtude do poder mortífero que vieram a abocanhar.

Finda a guerra, com a extensão dos crimes nazistas revelada e as imagens aterradoras do Holocausto divulgadas, o chocado público parou de rir do topete do Führer e, pulando para o outro extremo, fez dele um bicho-papão. Aos sobreviventes dos campos de extermínio não bastava mais o escárnio, era necessária a execração aos assassinos. Assim, o líder nazista tornou-se tabu, uma figura tão nefasta, que quanto menos se falasse dele, melhor. Relativamente pouco se escreveu sobre a sua vida — à exceção de Hitler: a study in tyranny, do inglês Alan Bullock, publicado em 1952 — pois, como eu já disse, biografar é humanizar, e ninguém queria saber de um Hitler humano. Traumatizada pelo delírio nazista que a destruiu, a Alemanha só gerou a sua primeira grande biografia do Führer, escrita por Joachim Fest, em 1973, dez anos depois desta de Herman Zumerman, aliás, Fernando Jorge.

Talvez a obra cinematográfica mais típica desse processo de satanização seja o filme baseado num romance de terror, Os meninos do Brasil, em que a mera existência de clones infanto-juvenis do Führer constitui uma futura ameaça ao planeta. Não por acaso, o autor desse livro foi o judeu nova-iorquino Ira Levin, competente criador de diabos, dentre os quais o mais notório (e assustador) foi O bebê de Rosemary.

Caricatura de David Levine

Uma tentativa corajosa e impagável de ridicularizar essa demonização de Hitler, reconduzindo-o à sua condição caricatural, foi o filme de 68 (depois adaptado como musical) Primavera para Hitler, onde o cineasta Mel Brooks, embora judeu, o retrata como uma simpática bicha louca de uma peça propositalmente destinada a chocar a Jew York do pós-guerra, mas que, contra todos os prognósticos, se torna um retumbante sucesso.

Esses filmes foram, no entanto, exceções à regra: controlada por judeus, Hollywood basicamente ignora Hitler até hoje. Nas décadas de 70-80, o Führer foi protagonista de algumas produções europeias de baixo orçamento, ainda que com atores da estatura de Alec Guinness e Anthony Hopkins. O telefilme inglês de 2003, Hitler – A ascensão do mal, repisa a imagem do tirano em seus primórdios como um jovem monstro desprovido de qualquer humanidade.

No ano seguinte, porém, o excelente filme alemão Der Untergang, sobre as últimas horas do Führer, chocou milhares de espectadores ao caracterizá-lo não como o energúmeno que vemos nos documentários, vociferando feito um possesso em um microfone, e sim como um homem frágil, precocemente envelhecido e com avançado mal de Parkinson, que dispensa pequenas gentilezas às secretárias e agradece à cozinheira pela última refeição. Se para os parentes dos mortos em Auschwitz e Dachau o Hitler Carlitos havia perdido a graça, o Hitler que diz “obrigado” era intolerável. Mesmo pessoas sem cicatrizes da monstruosidade nazista, mas conhecedoras de sua extensão, reagiam de forma muito passional a qualquer tinta menos negra no retrato do genocida-mor do Ocidente. É como se temessem o menor grau de identificação com tão assombroso personagem. A ilação inconsciente que se faz nesse caso é: “Se ele era humano como eu, eu posso ser um monstro como ele”.

Não há utilidade alguma em reduzir Hitler a um bigodinho tolo, muito menos em elevá-lo a Príncipe das Trevas. É importante preservar a dimensão humana do Führer para não nos esquecermos que ele não foi um fenômeno isolado e que, portanto, pode muito bem ressurgir em qualquer lugar, a qualquer momento, na pessoa de qualquer ditador ressentido e carismático. Se a trajetória do líder nazista nos serve de algo, é para nos alertar contra líderes políticos e religiosos contemporâneos de viés populista, considerados inofensivos precisamente pelo elemento algo burlesco, bonachão ou até cômico em suas personalidades, na sua aparência ou modo de falar, mas que, uma vez dotados de poder, seja por meio de eleições, roubo ou golpe de estado, não hesitarão em tirar o chapéu-coco e envergar a suástica.

Conhecer a história de Hitler e do nazismo nos dota de um termômetro para auferir a temperatura antidemocrática dos nossos próprios governos. Acaso temos políticos afeitos ao personalismo? Que violam sistematicamente promessas de campanha, ou que, por mais democráticos que se autodefinam, entregam-se a arroubos autoritários, exasperam-se com críticas e procuram a todo custo calar a imprensa, o TCU e outros órgãos vigilantes do regime democrático? Que são amigos de ditadores? Que gritam e gesticulam demais em comícios, a fim de usar o povo ignorante como massa de manobra? Se a resposta for afirmativa para alguma dessas perguntas, não estamos muito mais seguros que a República de Weimar, e todo cuidado é pouco.

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