Pequeno conto pós-pandemia

Há meses acabara a invasão de pandas, como me soou a tal palavra, mas em meu sitiozinho eu nunca sabia de nada. Já o dizia a única canção que retenho, moro onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, esqueci o resto.

 

O primeiro indício foi a chegada dos bichos. Outrora sempre de passagem, enxotados pelos latidos de Ercília, agora ficavam, e ela se entendia com eles, abanando o rabo.

 

Um dia, abri a janela e os vi ao redor da cabana, cães, jegues, porcos do mato, preás. Todos a me encarar, esperando algo de mim. Pássaros na mangueira não trinavam mais, só me fitavam. Pouco demorou para o fedor deles se espalhar dentro de casa, e Ercília mostrar-me os dentes. Não foi a única.

 

Parti antes que chegassem os carnívoros maiores. Não guardo mágoa, só retomavam o que era seu.

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