Nuvem Nada Passageira

Todo grande personagem é inspirado por uma entidade que o orienta, auxilia ou abandona. Napoleão por sua estrela (da qual Josefina seria a personificação), Sócrates por seu demônio, Joana d’Arc por suas “vozes”, Sebastião Nery por sua nuvem. Uma nuvem que, por sinal, fez chover na sua horta, tornando-o um dos mais respeitados jornalistas brasileiros e cronista-mor da nossa época, além de professor, advogado, político, e, sobretudo, homem de letras, na acepção mais ampla do termo. Com o presente livro, que acrescentou aos seus 15 anteriores, Sebastião Nery também merece agora figurar entre os memorialistas do calibre de Graciliano Ramos e de Pedro Nava, mas nunca de Brás Cubas, pois a despeito da qualidade machadiana do seu estilo, estas memórias nada têm de póstumas; ao contrário, vibram e pulsam com a energia vital que amplamente tem desmentido, ao longo de 77 anos, o “defuntinho”, como o frágil recém-nascido Nery foi apelidado, tão improvável parecia a sua sobrevivência.

A Nuvem inicia-se em 1944, quando o precoce menino Sebastião é levado de sua Jaguaquara natal para o seminário, e encerra-se aquando do seu retorno da adorada Paris para o Brasil, em 1994. Proporcionando-lhe uma formação acadêmica invejável após dotá-lo do intenso amor ao saber que resultou em erudição caudalosa, a nuvem de Nery conduziu-o pelo mundo inteiro como jornalista e adido cultural, e por todo o Brasil nas campanhas políticas mais efervescentes da nossa volátil democracia, como as de Juscelino em 1955 e das Diretas em 1984. Episódios prosaicos como o primeiro contato com luz elétrica aos 4 anos ou a descoberta do amor, e outros nem tanto, como o encantamento juvenil pelo comunismo e a prisão sob a ditadura militar, tornam-se instantaneamente lições de vida depois de filtrados pela enxuta e elegante prosa neryana. Kubitschek, Brizola, Collor ganham nova dimensão uma vez contemplados pela nuvem. Aliás, poucos nesses 50 anos são os personagens relevantes da nossa história sobre quem Nery não tenha algo relevante a contar, ou mesmo, que não tenha conhecido em pessoa, todos matéria-prima inexaurível para as anedotas com que enriquece incansavelmente o folclore político nacional.

Se erguermos os olhos para acompanhar a trajetória tão rica e fecunda da nuvem de Sebastião Nery, veremos que ela não é nem um pouco passageira: veio para ficar.

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Tensão no Paraíso

Numa floresta idílica à beira de um lago na Suécia, um grupo de alemães na casa dos trinta anos, monitores de uma colônia de férias, procura escapar da civilização, esquecer o passado amargo e ignorar o futuro incerto. “A Natureza não faz perguntas”, diz o anúncio enigmático respondido pela desiludida Anja, contratada para trabalhar no acampamento de verão, onde conhece e fica fascinada pela etérea e misteriosa Siri, a qual coloca a sua identidade sexual em jogo, enredando-a numa teia confusa e sedutora que faz as duas mulheres entrarem em conflito com o resto do acampamento. As tensões latentes nesse microcosmo da sociedade moderna acabam eclodindo, e o paraíso estival degenera aos poucos num inferno de tortura psicossocial, violência, loucura e assassinato.

História de amor, ficção criminal ou romance social? Para o jornal alemãoDie WeltAs camadas mais frias do ar é “uma obra-prima quase clássica de linguagem, tecida com frases cuja impecabilidade, precisão e profundidade bruxuleantemente tenebrosa, são raramente encontradas, e não apenas na geração atual”. As descrições artísticas da natureza e luz nórdicas constituem um elemento fundamental ao texto e à história, e segundo a revista Literaturen, “é difícil imaginar outro autor contemporâneo capaz de conferir expressão literária à magia da Natureza, aos seus humores, vozes e luzes cambiantes, do modo que essa escritora faz, ou que consiga despertar dúvidas tão radicais sobre a natureza emocional humana em meio à exuberância da Natureza”.

Com observações cuidadosamente lavradas sobre seus personagens — cidadãos de um país inexistente desde o colapso da Alemanha Oriental e do Muro de Berlim em 1989, estrangeiros na sua própria terra — e o meio em que se movimentam — cenários e imagens bucólicas que, como nos quadros impressionistas, não estão simplesmente presentes, mas parecem ser o efeito de uma luz incompreensível e sempre indistinta — a autora põe o dedo na ferida aberta da sociedade alemã contemporânea, expondo as fissuras mal vedadas da reunificação das duas Alemanhas. Acima de tudo, no entanto, ela questiona nossa percepção dos homens, das mulheres, do amor, e das convenções sociais que definem identidade e gênero, neste romance estiloso, de narrativa esculpida com a delicadeza precisa de um camafeu, definido como “um tour de force linguístico” e ao qual já foi até atribuída a criação bem-sucedida de uma nova linguagem para o amor.

Antje Rávic Strubel é a grande revelação da moderna literatura alemã. Nascida em Podstam em 1974, foi livreira em sua cidade natal, estudou literatura e psicologia, e trabalhou como iluminadora num teatro nos EUA. Diversas obras suas foram premiadas, inclusive o romance As camadas mais frias do ar, que no ano de 2007 ganhou os prêmios literários Hermann Hesse e Rheingau.
Segundo o autor norte-americano Bruce Wagner, Antje Rávic Strubel “escreve com o ardor frio de um velho mestre, e pinta com a mão firme de um elegante assassino”.
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Um Livro Necessário

No centro de São Luís, dois do povo conversam: “Qual a pior coisa do Maranhão?” “A família Sarney.” “Qual a melhor coisa do Maranhão?” “Ser da família Sarney.”

O diálogo faz parte do anedotário maranhense e ganhou sabor nacional quando José Sarney ocupou pela terceira vez a presidência do Senado, em 2 de fevereiro de 2009. Todas as conexões dafamiglia, assim mesmo, no sentido mafioso, vieram a público. Um escândalo atrás do outro se revelava.

Com 50 anos de vida pública, o político mais antigo em atividade no país começava sua descida ao inferno. É a partir dali que este livro puxa o fio da meada. E compõe, com as ferramentas do melhor jornalismo, mas sem perder o bom humor, um retrato do Brasil na era Sarney. O Sarney velho de guerra, especialista em urna viciada, cria de coronel, cevado na ditadura, o Sarney da UDN, da Arena, do PDS, do PFL, da desastrada “Nova República”, do estelionato do Plano Cruzado, da cumplicidade no sequestro da poupança promovida por Collor em 1990, do loteamento do setor elétrico. O coronel eletrônico fechado com qualquer governo, enquadrado em formação defamiglia.

Não se forma uma famiglia sem grandes aliados do mesmo naipe. Ele se cercou de gente da pior estirpe, como Edison Lobão, um dos Três Porquinhos — quem se lembra desse episódio grotesco da história recente do Brasil? Honoráveis figuras como Edemar Cid Ferreira, do liquidado Banco Santos; Renan Calheiros, Gim Argello, Agaciel Maia, Michel Temer, Wellington Salgado, Silas Rondeau, uma turma enrolada em tudo quanto é tipo de rolo. Toda a parentalha de sangue e suas histórias inacreditáveis, filho, irmão, neto procurados ou investigados pela Polícia Federal.

Este é um livro necessário. O historiador do futuro contemplará, como num painel, a época em que poucas vezes neste país se constituiu, à margem do poder legal, o verdadeiro e podre poder baseado na corrupção, em todos os seus sentidos. E o brasileiro de bem dos dias que correm entenderá por que às vezes lhe vem a tentação de desistir, por nojo, da política e dos políticos.

Contudo, leitura salutar. Conhecer as causas da náusea ajuda a encontrar o remédio.

(Este texto na orelha do livro não é de minha autoria.)

“Sarney é político sem luz, orador bisonho, poeta menor e escritor medíocre.”
Augusto Nunes, na revista Veja

“Sarney, devolve o Maranhão pro Brasil!”
José Simão, na Folha de S. Paulo

“José Sarney foi um dos piores presidentes da República que o Brasil suportou. Provinciano e medíocre, instaurou no Maranhão uma das mais implacáveis e reacionárias oligarquias já vistas, condenando sua terra e sua gente a condições de miserabilidade, analfabetismo e atraso econômico e social dignas de um soba africano.”
Hélio Fernandes, na Tribuna da Imprensa

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Vamos por Partes

Tive recentemente uma conversa divertida e um tanto surreal com os malucos inteligentíssimos do e-Zone sobre o livro Jack, o Estripador – a Verdadeira História, 120 Anos Depois, delito cometido por mim durante um acesso de febre e do qual não guardo lembrança alguma (refiro-me ao livro, não à conversa). O podcast pode ser ouvido aqui.

O cômico e controverso Religulous, de Bill Maher, foi exibido ontem pela HBO mutilado: algumas legendas em inglês, que completavam o áudio nesse idioma, sumiram sem ser substituídas em português, deixando o documentário com quase vinte minutos de imagens sem sentido. Se eu tivesse fé em teorias conspiratórias, provavelmente acharia que os fundamentalistas estão por trás disso; mas só acredita quem não sabe. Sei que a legendagem dos programas da HBO no Brasil é montada em Caracas, uma vez que a incompetência local não basta, é preciso recorrer à de um vizinho ainda mais retrógrado e que fala outra língua. Mais ou menos como se os cidadãos da Somália recorressem aos da Suazilândia (cujo idioma é o siswati) para que lhes escrevessem placas em somali. Não admira que cada vez mais canais do grupo HBO (History Channel, A&E Mundo, etc.) estejam sendo dublados, para horror dos que apreciam programas e filmes do modo como foram concebidos por seus autores. Aliás, com a aquisição cada vez maior de canais a cabo pela classe C, em breve só ouviremos atores gringos falando “vai se danar” ao invés de “fuck you“, embora com outros sotaques além do carioca, agora que não existe apenas a Herbert Richers no ramo, infelizmente.

Por falar em coisas “religículas”, a edição 2126 daVeja foi uma grata surpresa, com sua matéria de capa absolutamente imparcial — portanto crítica — sobre Edir Macedo Bezerra e sua quadrilha de sanguessugas engravatados, após ter durante anos servido de palanque ao Jim Jones tupiniquim. Será que Veja viu a luz? Não creio. Mais provável é que tenha sentido para onde o vento sopra, agora que o pseudobispo está (de novo) na mira da justiça. Do mesmo modo o famoso semanário, que elevou Collor a “caçador de marajás” (e não a Globo, ao contrário do que disse o seu agora querido amigo Lulla), não hesitou em sacudir a árvore quando viu o maracujá maduro para cair. Pena que essa nova intervenção do Ministério Público provavelmente vai dar em nada, outra vez, visto que o Bezerra de Ouro já roubou o suficiente para comprar impunidade por três vidas. O consolo é que isso tudo parece estar ao menos arranhando-o onde mais lhe dói: o bolso. Soube de fonte segura que a rede Record, menina dos olhos cobiçosos do mega-charlatão, anda enfrentando problemas de caixa, pois despediu boa parte da equipe de produção, cortou o terceiro horário de novelas e engavetou projetos como a minissérie sobre Jânio Quadros, alardeada com tanta insistência ao longo do primeiro semestre. Tarda mas não falta? Nisso eu gostaria de ter fé.

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Proto-Hamlet

O esplêndido romance Gertrudes e Cláudio, de John Updike, publicado em 2000 nos EUA e em 2001 no Brasil, pretende reconstruir os acontecimentos que antecederam a tragédia shakespeariana Hamlet, a saber: o triângulo amoroso formado pelo rei da Dinamarca, sua esposa Gertrudes e seu irmão Cláudio, que por meio de fratricídio usurpa a coroa e desposa a cunhada viúva. Esses personagens são, respectivamente, pai, mãe e tio do príncipe Hamlet, que dá nome à mais célebre tragédia do Ocidente ao lado de Édipo Rei.

Gertrudes e Cláudio é divido em três partes, e cada uma delas se inicia com a mesma frase: “O rei estava encolerizado”. Na primeira parte, o rei em questão é Rorik, pai de Gertrudes, na segunda trata-se de Horvendile, marido de Gertrudes, na terceira é Cláudio, segundo marido de Gertrudes. A narrativa começa quando a princesa adolescente é instada pelo pai a se casar com Horvendile, guerreiro sanguinário e irritantemente cheio de si, tornando-o o próximo rei da Jutlândia ou Dinamarca, e termina quando o filho dela, Hamlet, que interrompeu seus estudos em Wittemberg para comparecer às segundas núpcias da mãe, aceita ficar em Elsinore. Ou seja, o romance tem fim ao ter início a peça.

Apesar disso, John Updike procura não macaquear o Bardo, a começar pelo ritmo, bem diferente ao da peça. A ação se desenrola morosamente, com calma e precisão, tal como o amor outoniço dos protagonistas, numa prosa belíssima, notavelmente bem traduzida para o português por Paulo Henrique Britto, e prenhe de elementos e descrições, por vezes excessivos, que remetem à Escandinávia medieval. Para dar maior veracidade à sua narrativa, o autor procurou situá-la num contexto histórico muito bem definido, tal como Shakespeare o fez, embora as sucessivas montagens e versões cinematográficas (como a da foto, dirigida por Kenneth Branagh) o tenham subvertido. Outro artifício interessante para obter essa veracidade foi que em cada uma das três partes os mesmos personagens são chamados por nomes diferentes, segundo as versões da lenda de Hamlet fornecidas por Saxo Grammaticus, François de Belleforest, e Shakespeare. Destarte, a heroína é Gerutha e Geruthe antes de ser Gertrudes, o herói é Feng e Fengon antes de tomar o nome latino Cláudio ao assumir a coroa, Horwendil é Horvendile e depois Hamlet, seu filho Amleth torna-se Hamblet e então Hamlet, e Corambis passa a ser Polônio.

Sendo a ótica não mais a de Hamlet, com a qual nos acostumamos, mas a de sua mãe e do seu padrasto, o amor adúltero deles é tão puro quanto isso possa não soar contraditório. Estamos, afinal, na Idade Média, em que o amor cortês consagrou, através de poemas e trovas, os amores ilícitos de Lancelote e Ginevra, Tristão e Isolda, sendo o adultério visto como uma reação do sentimento ao casamento de conveniência, da natureza contra a ordem social. Difícil não sentir ternura por esse casal maduro. “Já passamos da idade da beleza, dizem os jovens, mas nossos sentidos nos afirmam o contrário.” Cláudio comete assassinato, mas não é um assassino, assim como Gertrudes comete adultério sem ser uma adúltera. “A incursão dela pelo desafio e protesto do adultério fora, tal como os anos que ele passara vagamundeando pelas terras meridionais, um desvio, uma exploração de sua própria natureza que, uma vez realizada, não precisaria ser retomada jamais.”

A cilada do maniqueísmo, não obstante, também é evitada por Updike. Embora Horvendile seja frio — e todo marido frio mereça ser corno —, ele é também um rei exemplar, muito cristão e inteligente, e um esposo responsável, inda que tedioso e insensível. Ele representa a nova ordem trazida pelas guerras e consolidada pela Igreja; Gertrudes encarna a Escandinávia semi-pagã, e Cláudio, homem viajado e embebido das tradições meridionais da Europa, representa o amor cortês, ao qual ela sucumbe, pois “não estava acostumada a lidar com homens com quem ela pudesse conversar e que estivessem dispostos a ouvi-la”.

Horvendile tanto não é tolo, que descobre com certa facilidade que seu irmão e sua esposa, de meia-idade ambos, começaram a traí-lo. Confronta o irmão, acusa-o e promete acabar com ambos, e com o velho Polônio, que alcovitou os amantes. Este, que já tem o hábito de escutar por detrás de tapeçarias — o qual custar-lhe-á a vida mais tarde —, dá a Cláudio os conselhos necessários para que os salve a todos. O rei, segundo ele, “não verá necessidade de tomar decisões apressadas em relação a nós e à rainha, tamanha sua confiança na solidez de seu poder”. Isso dá tempo a Cláudio de eliminar o irmão adormecido, deitando-lhe veneno ouvido adentro, semeadura da qual brota, por assim dizer, A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, que terá início com o fantasma do monarca assassinado exortando o filho à vingança, aparição aliás prefigurada no livro de Updike:

A fantasia corria solta; dizia-se que as sentinelas que faziam a ronda noturna sobre as muralhas do castelo tinham visto uma aparição trajando armadura completa.

Embora o conhecimento da peça não seja indispensável à compreensão deGertrudes e Cláudio, é evidente que proporcionará um prazer bem maior à leitura do romance, na medida em que este pretende explicar certas situações da peça. Por exemplo, a complacência do casal real com Polônio e o incentivo ao casamento da filha deste, Ofélia, com Hamlet, teriam sua origem na cumplicidade de Polônio no regicídio. Horvendile, que não gosta do velho conselheiro tagarela, diz sobre Ofélia, destinada a ficar louca na peça: “Há em seu juízo uma rachadura que, no advento de qualquer circunstância mais séria, pode abrir-se de todo”. Gertrudes, em contrapartida, ama a jovem como à filha que nunca teve, ou como à jovem que ela mesma já não é, dá no mesmo. Em seu diálogo com a moça, um dos mais belos do livro, falam de Hamlet.

— Às vezes — explicou Ofélia — ele me elogia de modo tão excessivo que parece estar zombando de mim. Recita poemas, e às vezes até os escreve.

— Também Cláudio escreve versos — Gertrudes ousou revelar. — Os homens têm uma natureza mais dividida que a nossa. Passam da lama para o pico da montanha, em sua imaginação, sem jamais pisar num chão intermediário. Para justificar as exigências do corpo, sentem necessidade de exaltar o objeto dessas exigências, transformando-nos em deusas, em impossibilidades sublimes, ou então nos tratam como lama. Meu filho tem muita imaginação, e desde pequeno sente um fascínio pelo teatro. Ainda que desempenhe o papel de apaixonado até as últimas consequências, isso não quer dizer que esteja sendo falso.

Embora ausente em Wittemberg na maior parte do romance, o personagem do príncipe não é poupado. Este proto-Hamlet de John Updike funciona também como um anti-Hamlet, que em tudo desmente o sweet prince. Fortemente neurótico, é da mãe, contra quem foi hostil desde o nascimento, que ele recebe um implacável diagnóstico:

À medida que foi crescendo, suas descobertas dos mistérios da natureza desencadearam nele, até onde uma mãe pode perceber tais coisas, reações mais de espanto e repulsa do que de entusiasmo. Para ele, as mulheres não são assunto de maior interesse; ele próprio possui em tal grau o princípio passivo que este não lhe parece tão atraente em outrem.

Ignorado pelo pai, o príncipe foi educado pelo bobo da corte Yorick, de quem teria absorvido o fascínio por teatro e representação. Cláudio, que não tem filhos, sente-se paternalmente predisposto com relação ao rapaz.

Na verdade gosto dele, do jovem Hamlet. Creio que posso lhe dar algo que seu pai jamais lhe deu — eu e ele fomos ambos vítimas daquele brutamontes obtuso. Somos parecidos. A sutileza dele, que mencionaste, é muito semelhante à minha. Nós dois temos um lado sombrio, o desejo de viajar, de ir para longe desta terra atrasada e nevoenta, onde os carneiros parecem pedras e as pedras parecem carneiros. […] Somos ambos vítimas da pequenez dinamarquesa, a sede de sangue dos viquingues reprimida pelas exterioridades do cristianismo, o qual ninguém aqui jamais compreendeu.

Gertrudes, que como toda mãe, sabe a quem deu à luz, discorda.

Eu o conheço. Ele é frio. Tu, não, Cláudio. És cálido, como eu. Gostas de ação. Queres viver, aproveitar o presente. Para meu filho, tudo é falso, mera encenação. Ele é o único homem em seu próprio universo. Se existem outras pessoas dotadas de sentimentos, isso apenas torna o espetáculo mais agradável, ele talvez concorde. Até mesmo a mim, que o amo com amor inevitável de mãe, desde o momento em que a causa de minhas dores foi colocada em meus braços, gemendo e chorando em memória do sacrifício por que nós dois havíamos passado, mesmo a mim ele vê com desdém, como prova de suas origens naturais, prova de que seu pai sucumbiu à volúpia.

Revelando-se mau profeta, Cláudio insiste que o enteado permaneça em Elsinore. Gertrudes cede, mas a contragosto.

Temo a guerra que ele traz dentro de si. Tu e eu estabelecemos a paz, na medida do possível, após um acidente trágico, e em paz a Dinamarca confirmou teu direito ao trono. Meu filho, com seus trajes negros e sua barba vermelha, vai perturbar todo esse equilíbrio complacente.

Updike encerra seu livro com o veredicto de um certo William Kerrigan:

Se deixarmos de lado o assassinato e seu encobrimento, Cláudio parece ser um rei competente; Gertrudes, uma rainha nobre; Ofélia, um tesouro de doçura; Polônio, um conselheiro maçante, mas não malévolo; Laertes, um rapaz como os outros. Hamlet arrasta-os todos para a morte.

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Papisa Joana

Ano de 814. No mesmo dia da morte do lendário Carlos Magno, nascia na aldeia de Ingelheim a única mulher da História destinada a ser papa: Joana.

Era a Idade das Trevas, uma época brutal, de ignorância, miséria e superstição sem precedentes. Os países europeus como os conhecemos não existiam, nem tampouco seus idiomas, mas tão-somente dialetos locais, sendo a língua culta o latim; a morte do imperador Carlos havia mergulhado o Sacro Império Romano num caos de economia falida, guerras civis e invasões por parte de viquingues e sarracenos.
A vida nesses tempos conturbados era particularmente difícil para as mulheres, que não tinham quaisquer direitos legais ou de propriedade. A lei permitia que seus maridos batessem nelas; o estupro era encarado como uma forma menor de roubo. A educação das mulheres era desencorajada, pois uma mulher letrada era considerada não apenas uma aberração, mas também um perigo.
Decidida a não se conformar com as limitações impostas ao seu sexo, Joana se disfarça de homem e ingressa num mosteiro beneditino, sob o nome de “irmão” João Ânglico. Graças à sua inteligência e determinação, ela rapidamente se destaca como erudita e médica, até que, sob a ameaça de ter seu disfarce revelado, parte para Roma, onde se torna médico do próprio papa. A partir de então, começa a ascensão de Joana rumo ao mais glorioso trono do Ocidente; porém, antes de cumprir seu destino, ela terá de superar obstáculos tremendos, como o seu amor pelo conde franco Gerold e as armadilhas do maquiavélico cardeal Anastácio, seu arquirrival, enquanto luta para não se enredar na teia de intrigas, corrupção e disputas pelo maior poder religioso do mundo.
A papisa Joana é um dos personagens mais fascinantes de todos os tempos, e um dos menos conhecidos. Embora hoje negue a existência dela e de seu papado, a Igreja Católica reconheceu ambos como verdadeiros durante a Idade Média e a Renascença. Foi apenas a partir do século xvii, sob crescente ataque do protestantismo incipiente, que o Vaticano deu início a um esforço orquestrado para destruir os embaraçosos registros históricos sobre a mulher papa. O desaparecimento quase absoluto de Joana na consciência moderna atesta a eficácia de tais medidas.
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Habemus Papissam

Meus últimos três meses foram dedicados quase que exclusivamente à tradução do belo e polêmico Papisa Joana, romance histórico de Donna Woolfolk Cross que deverá ser lançado por aqui em breve, pela Geração, e cuja versão cinematográfica já está no forno.

Existem argumentos bastante convincentes a favor e contra a existência dessa controversa personagem, que teria sido a única mulher na História a cingir, em plena Idade das Trevas, a coroa papal. Como o lançamento do livro no Brasil promete reacender essa discussão, não vou me ocupar dela no momento, limitando-me a citar um trecho desse interessante bildungsroman — que aliás figurou por bom tempo, se é que não figura ainda, entre os dez livros preferidos na Alemanha.

No dia da eleição, Joana foi rezar na igrejinha inglesa que havia sido a sua quando chegara a Roma.

Reduzida a cinzas pelo grande incêndio, a igreja fora reconstruída com materiais espoliados de antigos templos e monumentos romanos. Ao ajoelhar-se diante do altar-mor, Joana viu que o pedestal de mármore que o sustentava exibia o inequívoco símbolo da Magna Mater, antiga deusa da terra, adorada por tribos pagãs numa época imemorial. Abaixo do desenho tosco havia uma inscrição em latim: “Neste mármore foi oferecido incenso à Deusa”. Obviamente, quando a grande laje de mármore fora levada para lá, ninguém entendera o símbolo nem a inscrição. Isso não era surpresa alguma, pois muitos clérigos romanos mal sabiam ler, portanto eram incapazes de decifrar a caligrafia antiga e muito menos de compreender-lhe o significado.

A incongruência do altar sagrado e sua base pagã pareceu a Joana um símbolo perfeito de si própria: sacerdote cristão, ela ainda sonhava com os deuses pagãos da sua mãe; homem aos olhos do mundo, era atormentada pelo seu coração secreto de mulher; em busca da fé, vivia dividida entre o desejo de conhecer Deus e o medo de que Ele não existisse. Mente e coração, fé e dúvida, vontade e desejo. Será que as contradições dolorosas da sua natureza algum dia se reconciliariam?

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A Globo Não é Mais a Mesma; Graças a Deus!

Muitos anos atrás a rede Globo brindava seu público com teleteatros, talvez para se redimir por seu fundador, Roberto Marinho, ter sido um dos maiores lacaios da Ditadura Militar que tanto perseguiu o teatro neste país. Anos depois, sem a Ditadura, mas com a imbecilidade do público bem arraigada graças ao retrocesso cultural imposto pela Ditadura, acabaram-se os teleteatros da Globo, suas novelas ficaram mais numerosas e ainda menos inteligentes, e estreou o Big Brother, sem dúvida o ponto mais baixo já atingido por qualquer mídia em qualquer sociedade ou época. A minissérie Capitu, cujo último dos seus cinco episódios foi exibido ontem, é uma felicíssima retomada dos teleteatros da década de 70, com recursos técnicos de hoje.

A idéia de traduzir as insinuações e entrelinhas de Machado de Assis usando recursos teatrais e alegorias burlescas não é nova — houve nos anos 80 uma tentativa patética de verter nesse formato o Memórias Póstumas de Brás Cubas —, mas nunca foi tão bem-sucedida quanto nesta versão de Dom Casmurro adaptada por Euclydes Marinho para a TV. A direção de Luiz Fernando Carvalho é nada menos que perfeita, o elenco é impecável e a fotografia de encher os olhos. As vinhetas mostrando pedaços de fotos e recortes de jornais antigos retrata maravilhosamente as recordações fragmentárias do memorialista Bentinho. Este recebe seu apelido num trem da Central, não num bonde, e o Otelo a que assiste não é o de Verdi, mas o de Orson Welles, anacronismos expressionistas que acentuam melhor que qualquer montagem naturalista, de época ou não, a universalidade e perenidade do tema. O genial Bruxo do Cosme Velho teria ficado orgulhoso.

Aliás, leio na Veja que o subgênero da telenovela anda perdendo audiência, coisa impensável anos atrás. Notícias como essa, aliadas a obras da qualidade de Capitu, tornam mais fulgurante a luz que desponta no fim do túnel.

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Napoleoniana II

Mais um livro mal traduzido sobre o Grande Homem. A vítima desta vez é o Napoleãode Thierry Lentz, coisinha de cento e poucas páginas da coleção francesa Que sais-je?, para estudantes primários. O algoz é uma tal Constancia Egrejas.

Já ao folhear o livro na livraria, deparei com a seguinte bobagem na última página: “a burguesia o sustentou tanto que suas guerras tiveram sucesso”. O original, que desconheço, decerto diz “contanto que suas guerras tivessem sucesso”, sendo fato notório que a burguesia abandonou o imperador da França quando este começou a perdê-las.

Egrejas também ignora que nomes de reis e príncipes (menos os contemporâneos, exceção feita a Balduíno da Bélgica) devem ser aportuguesados. As esposas de Napoleão foram imperatrizes, portanto são Josefina e Maria Luísa, não Joséphine e Marie-Louise (ou Maria Louisa, como esta arquiduquesa era chamada em sua Áustria natal). A enteada dele, Hortense, foi rainha da Holanda, portanto Hortência. Todos os irmãos dele foram reis e príncipes, de modo que Joseph é José, Lucien é Luciano, Pauline é Paulina, Jérôme é Jerônimo, etc. Essa tradutora desconhece ainda quem foi Puchkin (a tradução conserva “Pouchkine”, como o dramaturgo russo é chamado pelos franceses), que o rio Rhône é o Ródano, entre outras omissões graves. A palavra règne é constantemente traduzida como “reino”, não como “reinado”, originando frases sem sentido como “O reino imperial tornou-se uma epopéia” (pág. 158).

A maioria das pessoas que prestam serviço de tradução são mulheres, pois é um trabalho que pode ser feito de casa. Existem excelentes tradutoras no Brasil, mas não de História. Eu sei bem, pois prestei serviço para o The History Channel durante anos, e nunca vi uma tradutora que tivesse conhecimento profundo ou mesmo interesse particular nos assuntos históricos que vertia para o português. Mulher odeia História. Não o ignorava o grande Machado ao observar no Dom Casmurro: “Respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos”. Era de se esperar, no entanto, que uma editora universitária fosse mais cuidadosa com suas traduções que um canal de TV a cabo.

Querem a prova de que isso é verdade e não machismo? Comparem duas biografias do Grande Homem lançadas pela Jorge Zahar Editor, ambas em 2005.

A primeira, Napoleão – Uma Biografia Política, de Steven Englund, não só tem o já mencionado problema de tradução de nomes, como também mostra uma caricatura de Napoleão bebê roubando a coroa de Luís XVIII enquanto este dorme, e embaixo a inscrição “Roubando a coroa do papa” (decerto o original dizia papa, “papai”). Quem traduziu? Maria Luiza X. de A. Borges.

A segunda é o formidável Napoleão – Uma Biografia Literária, de Alexandre Dumas, que não apresenta problema algum de tradução e, ao contrário, é um primor de correção histórico-lingüística em português. Quem traduziu? André Telles.

I rest my case, Your Honor.

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Para Calar a Boca dos Pseudojornalistas

O relançamento do livro Cale a Boca, Jornalista!, de Fernando Jorge, não poderia ser mais oportuno que agora, quando o desencanto com a democracia, causado pela corrupção do governo petista, tem levado não apenas nosso ignorante e desmemoriado povo, mas até indivíduos supostamente bem informados, como jornalistas, a lançar olhares nostálgicos para a criminosa ditadura militar brasileira, enxergando nela uma era dourada em que “havia ordem e ninguém roubava”.

Um texto inacreditável tem circulado pela internet, da autoria de um tal Paulo Martins, suposto jornalista que escreve ou escrevia para a Gazeta do Paraná. Transcrevo aqui só uns trechos do factóide, pois meu estômago é fraco:

Não lembro de ter sido perseguido, como insistem em afirmar que era o hábito da época aqueles que, por falta de argumento para uma retórica razoável, apelam sem disfarces para o desvirtuado e corrosivo “ouvi dizer”.

Que ditadura era aquela que me permitia votar? Que nunca me proibiu de tomar uma cervejinha num desses bares da vida após as vinte e três horas? Ou num restaurante de beira de estrada?

Que ditadura era aquela que (eu não fumo) nunca proibiu quem quer que seja de fumar? Que ditadura era aquela que nunca usou cartão corporativo para as primeiras damas colocarem até botox no rosto ou para outros roubarem milhões de reais do povo brasileiro?

Vi, sim, perseguições, porém contra elementos de alta periculosidade à época (…)

Minha reação ao ler tamanha sandice foi não ter reação alguma. O que responder a alguém que acha que não houve ditadura militar no Brasil só porque não lhe proibiam que fumasse ou que bebesse cervejinhas? (difícil é entender por que uma ditadura proibiria tais coisas…) O que responder a alguém que acha que não houve perseguições só porque ele não foi perseguido, dessa forma escarnecendo do sofrimento das pessoas que, sim, foram perseguidas, ou tiveram parentes, cônjuges, amigos arbitrariamente presos, torturados, assassinados, apenas por não querer uma ditadura neste país? Que dizer a quem afirma que havia eleições livres durante os governos militares? Valeria a pena mandar um infeliz desses — cujo prenome me envergonho de compartilhar — se informar minimamente sobre as atrocidades cometidas nos anos 70 contra pais de família, operários, profissionais liberais, intelectuais, estudantes, mas principalmente contra seus colegas de profissão? Valeria a pena o incômodo? Decidi que não.

Vale a pena, no entanto, alertar a nova geração contra os pseudojornalistas; pois, que um ignorante acredite que só terroristas perigosos foram perseguidos pelo governo totalitário, é estupidez; mas que divulgue tal estupidez através de um jornal, influenciando outros ignorantes, é pernicioso.

Por isso o livro de Fernando Jorge volta em tão boa hora. Nada como relembrar as censuras, perseguições, encarceramentos, socos, coronhadas, choques elétricos nos testículos, paus-de-arara, tiros e outros argumentos impingidos contra homens de imprensa pelos políticos de uniforme que se autodenominavam majores, coronéis e generais. Relembrar para quê? Para demonstrar à farta que todos os que praticam jornalismo reacionário, a exemplo do pseudofilósofo Olavo de Carvalho — escrevinhador de uma autobiografia intitulada O Imbecil Coletivo —, nada fazem além de lamber botas que eventualmente lhes chutarão a cara.

Cale a Boca, Jornalista! demonstra também quão pouco aprenderam esses jornalistas lambedores de coturnos com a experiência sofrida pelo ícone deles, Carlos Lacerda, o corvídeo que, após crocitar incansavelmente contra quatro presidentes democráticos e constitucionais, ajudando assim a precipitar o nefasto Golpe de 64 na esperança de que seus amigos militares o empoleirassem na Presidência, acabou depenado por eles.

A pesquisa de Fernando Jorge vai além da selvageria fardada, abrangendo os primórdios do ódio ao prelo no Brasil colonial — com destaque para o ínclito José Bonifácio mandando esbordoar o editor do periódico A Malagueta —, sem deixar de fora jornalistas que perseguiram jornalistas, como o vampiro da democracia Carlos Lacerda, que fez apreender edições do Correio da Manhã e outros jornais quando governador da Guanabara, em 1961.

Esta quinta edição de Cale a Boca, Jornalista! traz ainda reflexões pertinentes sobre governo, como a total inutilidade do Senado:

Devemos adotar o unicameralismo, a estruturação do parlamento numa só câmara ou assembléia legislativa. O Senado no Brasil é uma excrescência, um desperdício, macaquice do sistema norte-americano. É um peso morto, um parasita, não vale nada, apenas escorcha o povo. Custou aos cofres públicos, no ano de 1987, mais de três bilhões de cruzados! Sustenta mais de seis mil funcionários! A gráfica do Senado, por exemplo, tem 1.583, e entre eles a colunista social Consuelo Badra. Suas Excelências, os senadores, possuem um mandato de oito anos… Todos mamando nas tetas do Estado. Para quê? Basta uma câmara de deputados. Não há coisa alguma capaz de impedir que esta execute as funções privativas do Senado, como autorizar, por exemplo, a obtenção de empréstimos externos a estados e municípios, ou aprovar a designação de ministros dos tribunais superiores.

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